domingo, 19 de setembro de 2010



1.

chegaste com as folhas de outubro
adormecida nas mesmas cores

ficaste como quem espera
a vinda de maio

sombram-te fantasias    sonhos
adormecem [como tu] as cores
que outubro tinha nas folhas
quando chegaste




2.

em azul
roda o pensamento da gaivinha
olha a rocha

tombada na areia
a água
quebra no verso

sonhas-te viajante em mar
desconhecido
primeira ouvinte do roçagar
da seda    que te incha?

um vento de mármore
na constelação da barca
suprime as palavras

borbulha silêncios




3.

a praia é o album de recordações
por onde vemos
impressos
os primeiros passos das mãos




4.

o que deixámos
não jaz
apenas muda de olhar

talvez haja outra frequência
nas ondas
outro estalar nos rios

nas velas e nas asas
a sombra se mova mais por dentro

o que deixámos
é o de sempre
mesmo quando o olhar apaga

a silhueta que fica




5.

é sobre o corpo que o telhado cresce
afagam-me a língua
folhas por escrever

é teu o segredo da palavra
e o eco
do verbo
pousado no colo

apenas o espelho não ouve
a face esperada




6.

penetrando a linha
os pés pousaram na areia
com solas de agosto

esperámos junto ao mar
a chegada do tempo

aves em migração
voámos outubro inteiro




7.

foi depois: a casa abriu
janelas e braços
à neve de janeiro
[que nos veio cumprimentar esse ano]

foi quando abrimos o álbum
para ver se as peugadas eram iguais
às que a areia guardou

enrolado no outono




8.

arrumámos a poesia
no lugar que convinha aos versos

a sala encheu-se de névoa

eram letras que bailavam
um lento significado de espera
pelos rios que ainda corriam
caudalosos
protectores
delindo um eclipse de tempo
sem retorno




9.

voltámos à praia
ao primeiro chamar
da andorinha-do-mar

deixámos os beirais
a descoberto
e a incerteza dos dedos pousada
no lugar da voz

por mim    podia dizer que
amo o silêncio
com que me chamas

a escrever na areia




10.

para ti    podia recortar
todas as manhãs
existentes nas mãos

pendurar a imagem
            [espelho que fosse]
no desejo de pólen
que te acolchoa o infantário

traçar
na gruta do domicílio
o nome




11.

a ti    ave pousada na cepa    entrego
a colheita de outono

toma das uvas o mel e o delírio
que sobre as palavras
estará a ser o que se move

tua é a guarda da voz e do silêncio
que um espasmo em força pode
desequilibrar a qualquer instante

mas será sempre nossa a viagem
ao interior daquela
luz – rasgadas as paredes da sombra –
que pendura no espelho que convém
a imagem




12.

no ciclo da lua
sobem e descem marés
às areias

distante
o outono observa o rito
das árvores

tão antigo como abril




EPÍLOGO

pouso nos dedos a idade de te ter
junto ao acordar

sonho maio a abrir uma flor
em silêncio espero da mão a face
quando o outono colher
a idade de me ter junto ao sono

©FERNANDES Júlio A. B. – EPILEPSIA DAS HORAS - II — 2010.


terça-feira, 5 de maio de 2009



















Campo de Letras

II

Há certa sagacidade na gente raiana.

Alguns têm até

o dom de nos espantar

com visão da nudez e do fogo

que chega no solstício maior.


A serra despe-se despudoradamente.

Desquadrilhando-se, o matagal soberbo.



A ousadia é um sinal singelo.


Encontrámo-nos algures sob o azul.

A maternidade da terra aporta no olhar.

Verticalidade da vinha

em socalcos rasgados do seu ventre,

ri com seus dentes verdes.

Uma águia chama ao deslumbramento.

Poderia deixar as mãos deslizar

pelas tuas rochas nuas, acariciar

teus espaços como sol.

A nuvem dos pensamentos diluiu-se

nas tuas encostas graníticas.



A viagem começa perto do meio-dia.

No bornal, momentos.

Esses mesmo que também levas

aos lugares que visitas,

sem medos,

pois que passam todas as alfândegas.



Há registos de pré-história no corpo.

Impressões de mãe no vento da Serra.

Um sopro morno, de quatro rios.

Brancuras e grutas e sinais castrejos

nas pedras da minha terra.

(Sonolento

desejo de acordar.)



Dois rios no estuário. Um oceano desconhecido ruge. É noite.

Apetece-me prender o tempo nas asas dum falcão-peregrino.

Voar na imensidão da seara rumo a nenhures.

Se soubesses quantos planos comporta

o pensamento duma cordilheira…



Antes do crepúsculo, tudo adormece.


As cores são mais vivas com a lua

e as vozes mais sonoras

são gargantas de silêncio;

a montante

a intensidade vai descendo;

nevoeiro pelas costas da serra

o véu sob os rios.

Quando a oração chega, a Confirmação sacramental

não reduz a luz.


Se desaguar um ribeiro no teu leito,

se na sua bordadura encontrares areias,

se delas fizeres praia fluvial.

Convida-me à plenitude.

Também sou forma e curso e vento

pairando sobre as montanhas.



Fortifico a povoação

do corpo, no cume

do vinho os

socalcos da serra

engravidam

os olhos nostálgicos.


Um morcego de bigode retira-se

a manhã despe a noite.

Instalados no risco dos socalcos castanheiros

afloram as encostas penetrando a terra basal.


Deixai-me vergar o centeio.


Descamisar a espiga da boroa.


Regar a urze peluda

com a humidade retida entre as pedras.



Sou romano nas tuas terras;

cobiço: o esplendor de teus vinhos,

o calor de tuas águas termais,

a abundância do teu colo.


Panóias, do meu desassossego,

apazigua, cativa

o meu deslumbramento

vertical.

Às vezes, são as vertigens que me assustam

e me fazem fugir de ti.

De mansinho, o vento vem dobrar o colmo.

Assobia entre o xisto chamando a fauna.

Há um lugar imponentemente belo —

o vale profundo onde me deito ao raiar da aurora.



Se te pudesse olhar com a mesma doçura

com que me olhavas nos idos de maio,

quando me deitavas no teu poema,

inteiramente aberto

ao contacto das minhas mãos…

Mas maio foi abril

de anos corridos em penumbra.


Sabes,

ontem balancei-me nos teus picos.

Tomei banhos de vento e de sol —

recordei-te como sempre foste.

Contigo nunca precisei de óculos

protectores,

mesmo quando te pintavas de branco

para me arrefecer o corpo

nos dias de febre.


Hoje, volta a ser maio em abril.

As águas do mar, têm o mesmo som,

os rios correm para o mesmo lugar,

pela mesma estrada.

(Já para ir ter contigo!…,

fizeram via nova, rápida,

como se visitar-te fosse coisa…

tipo «rápido».)


Deixei-me seguir ao longo

de teu longo corpo

ansiando sentir-te

meu maio

abril em mim.

Os passos são luz quando se regressa às origens.

Irremediavelmente, tudo evolui.

Anda no ar uma tecnocracia de evolução…

e na terra um sardão (ou será víbora-cornuda?!),

ou martes foina, e o rio ali mesmo: Ovelha!



Era, talvez, um corvo.

Um corvo!, sim!, seria?!

Aquela ave que nos seguia

pelo alto da serra

despida de preconceitos

de céu e chão. Ou

seria um gavião a levedar o pão,

a ave que nos seguia

pelos altos do marão?


De rapina!?

a memória pequenina

daquela pequena escola

que foi minha, muito viva,

aconchegadinha

ao poder que a recorda.



O caminho serpenteia.

Encosta a cima, geme o entrudo.

Melhor fossem os lobos, alcateias inteiras. Corços!

Um esquilo ainda saltita nos ramos do Carnaval.



É tardinha nos sorrisos soltos

a luz da serra ficou lá longe,

no mesmo espaço para onde voam

os soltos sorrisos da tardinha.


É da idade. Sempre a idade a trair

a urdidura do tempo que foi lá…

na luz da serra que ficou longe,

na tardinha dos sorrisos voadores.

Ainda assim, são eles e ela na tardinha

campanários d’alma bem fresquinha

nas janelas da estrada a serra minha


a casa do ser no seu todo.

O pássaro que voa é um tordo

na manhã da outra casa…



Era dia dentro da noite.

A recordação desperta pela serra como silêncio

duma ave alerta com olhar fixo

na distância.


Podia dizer-te da força do vento que a povoa ou,

simplesmente,

falar daquela coroa, elevada sobre a urze

e a carqueja,

e dos tojos a protegerem da aproximação.

Mas, não.

Sob a neblina, o horizonte

abre-se à majestade,

a esse doce esplendor presente

da saudade,

quando a manhã acorda branca.

Morna e branca a manhã da casa.

Ainda que a luz seja pálida,

há um interruptor que recorda

despudorando

palavras de ventre,

calores de entranhas, montanhas

com seios lisos sob o céu azul…



O passado é memória nos olhos do observador.

E como é rude esta vida, este olhar encurtado,

vincado

na passagem daquela saudade infantil,

própria.


Ainda que fosse uma águia-caçadeira. Uma toupeira-
-de-água. Um tarta-arranhão-azulado.

Uma gralha-de-bico-vermelho. Um

melro-das-rochas. Um falcão-peregrino,

a dormir nas palavras.

É tardinha nos sorrisos soltos

a luz da serra ficou lá longe,

no mesmo espaço para onde voam

os soltos sorrisos da tardinha.


É da idade. Sempre a idade a trair

a urdidura do tempo que foi lá…

na luz da Serra que ficou longe,

na tardinha dos sorrisos voadores.


Ainda assim, são eles e ela na tardinha

campanários d’alma bem fresquinha

nas janelas da estrada a Serra minha


a casa do ser no seu todo.

O pássaro que voa é um tordo

na manhã da outra casa…


FERNANDES, Júlio A. B. - Março 2009.


















Campo de Letras




Tenho sono.

Acontece

às vezes

ter sono.


O mesmo sono das palavras sossegadas

na verticalidade da prateleira.



Se soubesses o quanto me incomoda o piscar de luzes, os

berros da noite na sala de espera ou o marear do búzio

encostado ao ouvido. Ainda que fosse jardim de palavras

plantadas tardiamente a florir em Março?

Talvez deixe os versos beberem um pouco do verbo,

apenas para dizer de como me aquecem as brasas depois

do fogo consumir os ramos.

E se florir alguma coroa-de-rei com cor-de-lume entre os

jacintos bronzeados e os cor-de-neve, é porque a terra

ainda consome dias de verão.



Aflige-me este piscar constante

de ambulância em urgência;

este sol estridente

que me não deixa dormir

quanto cia

na verticalidade inversa

dos ecos da prateleira.



A partir duma certa idade, o sono demora. Entre o ir e o

regressar corre o dia da lua. Talvez por ordem de

engano!? Há quem o alongue. Há quem o encurte.

No meu jardim as flores abrem com a luz das estrelas.

É verdade, também há girassóis nos vasos que sobem as

escadas para a cozinha, pelas traseiras.

Envergonhados, voltam costas ao quintal coberto de ervas

daninhas. Mas, por estarem nas costas, sentem-se melhores,

com mais calor e humidade.

Envaidecidos, não olham a porta principal onde os vasos

maiores, com as flores mais exóticas e belas, ornam a voz.



Aquele jacinto — caulescência

sem utilidade no jardim —

atrapalha-me o dia.


Silencioso

tombou na terra

sem abrir flor.


O real invadiu o horizonte dos olhos

quadrifendendo o mundo

em conjuntos não contidos.



Com asas de surpresa, este falar mudo afirma-se no tacto

e, refrescando os olhos, entra na corrente.

Bastará a mente e seus impulsos eléctricos para fazer fluir

o Rio? Pulsará no tempo a água vermelha que escorre

por todos os hemisférios do corpo? No dia em que a luz

entrar no alçapão do sótão, que descobrirá?



A minha escrita etiquetada —

marca contrafeccionada

em comércio de feira?…


Talvez…


Caminho divergente

convergente

aposto à mesma ideia

de sempre.


Apenas

rasgado com outro sabor:

o meu!



Os dias são uma sucessão de surpresas encontradas nos

caminhos onde entramos quase, quase, quase sem querer.

Quase… quase como folhas que vamos colorindo, brincando

com o silêncio, o pó, o rio estendido ao sabor do nosso

refresco, brinca com o veneno que traz na língua. Quase

fogo. Quase… asas queimadas, não levantam voo.



o silêncio

atinge

a irrealidade,


no corredor do nada

realiza

o vazio.


o vazio é nada.

o nada é silêncio.

o silêncio é palavra.

a palavra é surpresa,


é escárnio:


livro deitado

a ressonar o poema.


...


sou inútil quando durmo,

dormindo não realizo

o silêncio da ausência

— inominada —

brancura de página resistente


na vaga

enrolada

nas saias de Abril

a flor azul

enraizada

no Março

a florir

no Maio —

a boca do Outubro

nos olhos:

o silêncio absoluto

a ânsia

presença/ausência

inútil quando durmo.


esse fascínio especial

de eco perene

inevitável

ao ritmo do rumor

insuperável —

musical contradição

na brancura final.


a transparência é:

a mórbida vontade

do espelho,

em apresentar

invertida

a imagem aos olhos

analógicos

da ilusória urdidura.



FERNANDES, Júlio A. B. - Março 2009.




















CORES


1.


Um carro…


Rodas preso nas linhas;

todas,

corpo


entre troncos

lambidos

a fogo.


Dentro, as margens do vento

na face

rosada

florida flora

rústica telha vermelha.


Pelo outro lado, sobem

gorjeios

líquidos

aos pés das cabras.


Não corras a voz

nos fios

telefónicos


ela soa melhor

nos fios

do chão.



2.


Onde estiveram, assim, tão cheios

de seiva teus seios simples,

duros.


(Suculência apertada na boca

da urze e da carqueja

até meus olhos?


Esse leite escorrido

pela ranhura das pedras, teu corpo

despido no murmúrio do sol?)


O verão na face e a luz

mais viva dos círios, sorvo-te

completa, a boca inteira

entrelinhas sinuosas…


Onde estiveram, assim, tão cheios

de seiva teus seios simples,

duros

sem meus lábios?



3.


Os calcanhares do tempo

ressoam na terra, homem,

em ecos

as vidraças que te ouvem!…


Entra

vivo

cor e som.


(Que calor

visionarias agora

na hora

das ancas dançando

na seda do lago onde dormes?)


Quantas sombras,

salpicos oceânicos,

no orgânico rosto metalizado…


(E tu,

através do cano,

namoras

a hora

que te leva ao chão?)


a sombra

a sombra do sono

e de novo dormes!…



4.


Quantas aves fazem ninho no teu corpo

quanta abundância de húmus

agarrado a tuas pernas

são tuas lágrimas quem rega?



É intenção do observador, nesta hora menos própria do dia

despir-se como todos os amantes [a esta hora menos própria do dia

gemem as flores o sol da tarde — sem refresco de frutos por perto onde

mergulhar a boca ressequida ou o corpo (como sofá de pele

que a luz vai comendo)].

É intenção do observador, nesta hora menos própria do dia

mergulhar como todas as crianças nos tanques que povoam a cidade

sem o constrangimento da nudez exposta ao transeunte dando cor

à reportagem de meteorologia: — até fez levantar o asfalto!…

É intenção do observador, nesta hora menos própria do dia

dormir a sesta — até deus o fez ao sétimo dia, porque não fazê-lo

o pobre poeta à sétima hora — após o sol lamber a terra?



Quando subires a serra,

verás o resto

e saberás quem dorme na tela

jorrando água pelos olhos.



5.


Desapareceu o arauto

essa figura de gente que nos batia à porta dos tímpanos

com as novas do dia, lá pela baixa,

e interpelava os manequins passeantes com os fatos último grito,

com sua voz rouca de bagaço.


Desapareceu o arauto

mas a desgraça, não. Tal como o ardina, também ela se veste

de maltrapilho. Farrapos com nome, sim. Farrapos são manequins

passeantes com seus fatos último grito,

(pensando que envergonham as montanhas frias

a noroeste dos sonhos

onde mais uma desgraçada teve um bastardo

do dono da fábrica.

— Já não se usa?!…)


Desapareceu o arauto

e a voz dos bastardos do mundo — fui com eles:

Subimos as penedias interiores onde o tempo parou.

É lá que vivem agora, luz e cor, abrigados por detrás de um cartaz

anunciando cerejas na face da estrada.

E o lugar vai-se enfeitando pelas suas mãos:

cortam-lhe os cabelos espinhosos enquanto as cabras pastoreiam.


Desapareceu o arauto

das ruas

frias

nuas

como a voz dos homens!



6.


Não

mudou

de nome

a lagoa ao fundo do corpo


nem

as mãos

que a mergulham


ganharam asas e novo voo


revivem

apenas

a estrada


com renovado sabor

a luz que outrora era e não via



7.


A minha mãe encontra-se no quadro

rentinho ao chão

pintada a flores de tons sagrados

murmura quando acorda

pelo estio

sedes à minha boca


como fugir deste chamamento

solteiro?


nos traços da lua vejo

pedaços dela

como é bela a minha mãe

viva no quadro

rentinho ao chão.


FERNANDES, Júlio A. B. – Maio 2009