domingo, 19 de setembro de 2010
terça-feira, 5 de maio de 2009
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Há certa sagacidade na gente raiana.
Alguns têm até
o dom de nos espantar
com visão da nudez e do fogo
que chega no solstício maior.
A serra despe-se despudoradamente.
Desquadrilhando-se, o matagal soberbo.
A ousadia é um sinal singelo.
Encontrámo-nos algures sob o azul.
A maternidade da terra aporta no olhar.
Verticalidade da vinha
em socalcos rasgados do seu ventre,
ri com seus dentes verdes.
Uma águia chama ao deslumbramento.
Poderia deixar as mãos deslizar
pelas tuas rochas nuas, acariciar
teus espaços como sol.
A nuvem dos pensamentos diluiu-se
nas tuas encostas graníticas.
A viagem começa perto do meio-dia.
No bornal, momentos.
Esses mesmo que também levas
aos lugares que visitas,
sem medos,
pois que passam todas as alfândegas.
Há registos de pré-história no corpo.
Impressões de mãe no vento da Serra.
Um sopro morno, de quatro rios.
Brancuras e grutas e sinais castrejos
nas pedras da minha terra.
(Sonolento
desejo de acordar.)
Dois rios no estuário. Um oceano desconhecido ruge. É noite.
Apetece-me prender o tempo nas asas dum falcão-peregrino.
Voar na imensidão da seara rumo a nenhures.
Se soubesses quantos planos comporta
o pensamento duma cordilheira…
Antes do crepúsculo, tudo adormece.
As cores são mais vivas com a lua
e as vozes mais sonoras
são gargantas de silêncio;
a montante
a intensidade vai descendo;
nevoeiro pelas costas da serra
o véu sob os rios.
Quando a oração chega, a Confirmação sacramental
não reduz a luz.
Se desaguar um ribeiro no teu leito,
se na sua bordadura encontrares areias,
se delas fizeres praia fluvial.
Convida-me à plenitude.
Também sou forma e curso e vento
pairando sobre as montanhas.
Fortifico a povoação
do corpo, no cume
do vinho os
socalcos da serra
engravidam
os olhos nostálgicos.
Um morcego de bigode retira-se
a manhã despe a noite.
Instalados no risco dos socalcos castanheiros
afloram as encostas penetrando a terra basal.
Deixai-me vergar o centeio.
Descamisar a espiga da boroa.
Regar a urze peluda
com a humidade retida entre as pedras.
Sou romano nas tuas terras;
cobiço: o esplendor de teus vinhos,
o calor de tuas águas termais,
a abundância do teu colo.
Panóias, do meu desassossego,
apazigua, cativa
o meu deslumbramento
vertical.
Às vezes, são as vertigens que me assustam
e me fazem fugir de ti.
De mansinho, o vento vem dobrar o colmo.
Assobia entre o xisto chamando a fauna.
Há um lugar imponentemente belo —
o vale profundo onde me deito ao raiar da aurora.
Se te pudesse olhar com a mesma doçura
com que me olhavas nos idos de maio,
quando me deitavas no teu poema,
inteiramente aberto
ao contacto das minhas mãos…
Mas maio foi abril
de anos corridos em penumbra.
Sabes,
ontem balancei-me nos teus picos.
Tomei banhos de vento e de sol —
recordei-te como sempre foste.
Contigo nunca precisei de óculos
protectores,
mesmo quando te pintavas de branco
para me arrefecer o corpo
nos dias de febre.
Hoje, volta a ser maio em abril.
As águas do mar, têm o mesmo som,
os rios correm para o mesmo lugar,
pela mesma estrada.
(Já para ir ter contigo!…,
fizeram via nova, rápida,
como se visitar-te fosse coisa…
tipo «rápido».)
Deixei-me seguir ao longo
de teu longo corpo
ansiando sentir-te
meu maio
abril em mim.
Os passos são luz quando se regressa às origens.
Irremediavelmente, tudo evolui.
Anda no ar uma tecnocracia de evolução…
e na terra um sardão (ou será víbora-cornuda?!),
ou martes foina, e o rio ali mesmo: Ovelha!
Era, talvez, um corvo.
Um corvo!, sim!, seria?!
Aquela ave que nos seguia
pelo alto da serra
despida de preconceitos
de céu e chão. Ou
seria um gavião a levedar o pão,
a ave que nos seguia
pelos altos do marão?
De rapina!?
a memória pequenina
daquela pequena escola
que foi minha, muito viva,
aconchegadinha
ao poder que a recorda.
O caminho serpenteia.
Encosta a cima, geme o entrudo.
Melhor fossem os lobos, alcateias inteiras. Corços!
Um esquilo ainda saltita nos ramos do Carnaval.
É tardinha nos sorrisos soltos
a luz da serra ficou lá longe,
no mesmo espaço para onde voam
os soltos sorrisos da tardinha.
É da idade. Sempre a idade a trair
a urdidura do tempo que foi lá…
na luz da serra que ficou longe,
na tardinha dos sorrisos voadores.
Ainda assim, são eles e ela na tardinha
campanários d’alma bem fresquinha
nas janelas da estrada a serra minha
a casa do ser no seu todo.
O pássaro que voa é um tordo
na manhã da outra casa…
Era dia dentro da noite.
A recordação desperta pela serra como silêncio
duma ave alerta com olhar fixo
na distância.
Podia dizer-te da força do vento que a povoa ou,
simplesmente,
falar daquela coroa, elevada sobre a urze
e a carqueja,
e dos tojos a protegerem da aproximação.
Mas, não.
Sob a neblina, o horizonte
abre-se à majestade,
a esse doce esplendor presente
da saudade,
quando a manhã acorda branca.
Morna e branca a manhã da casa.
Ainda que a luz seja pálida,
há um interruptor que recorda
despudorando
palavras de ventre,
calores de entranhas, montanhas
com seios lisos sob o céu azul…
O passado é memória nos olhos do observador.
E como é rude esta vida, este olhar encurtado,
vincado
na passagem daquela saudade infantil,
própria.
Ainda que fosse uma águia-caçadeira. Uma toupeira-
-de-água. Um tarta-arranhão-azulado.
Uma gralha-de-bico-vermelho. Um
melro-das-rochas. Um falcão-peregrino,
a dormir nas palavras.
É tardinha nos sorrisos soltos
a luz da serra ficou lá longe,
no mesmo espaço para onde voam
os soltos sorrisos da tardinha.
É da idade. Sempre a idade a trair
a urdidura do tempo que foi lá…
na luz da Serra que ficou longe,
na tardinha dos sorrisos voadores.
Ainda assim, são eles e ela na tardinha
campanários d’alma bem fresquinha
nas janelas da estrada a Serra minha
a casa do ser no seu todo.
O pássaro que voa é um tordo
na manhã da outra casa…
FERNANDES, Júlio A. B. - Março 2009.
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Campo de Letras
Tenho sono.
Acontece
às vezes
ter sono.
O mesmo sono das palavras sossegadas
na verticalidade da prateleira.
Se soubesses o quanto me incomoda o piscar de luzes, os
berros da noite na sala de espera ou o marear do búzio
encostado ao ouvido. Ainda que fosse jardim de palavras
plantadas tardiamente a florir em Março?
Talvez deixe os versos beberem um pouco do verbo,
apenas para dizer de como me aquecem as brasas depois
do fogo consumir os ramos.
E se florir alguma coroa-de-rei com cor-de-lume entre os
jacintos bronzeados e os cor-de-neve, é porque a terra
ainda consome dias de verão.
Aflige-me este piscar constante
de ambulância em urgência;
este sol estridente
que me não deixa dormir
quanto cia
na verticalidade inversa
dos ecos da prateleira.
A partir duma certa idade, o sono demora. Entre o ir e o
regressar corre o dia da lua. Talvez por ordem de
engano!? Há quem o alongue. Há quem o encurte.
No meu jardim as flores abrem com a luz das estrelas.
É verdade, também há girassóis nos vasos que sobem as
escadas para a cozinha, pelas traseiras.
Envergonhados, voltam costas ao quintal coberto de ervas
daninhas. Mas, por estarem nas costas, sentem-se melhores,
com mais calor e humidade.
Envaidecidos, não olham a porta principal onde os vasos
maiores, com as flores mais exóticas e belas, ornam a voz.
Aquele jacinto — caulescência
sem utilidade no jardim —
atrapalha-me o dia.
Silencioso
tombou na terra
sem abrir flor.
O real invadiu o horizonte dos olhos
quadrifendendo o mundo
em conjuntos não contidos.
Com asas de surpresa, este falar mudo afirma-se no tacto
e, refrescando os olhos, entra na corrente.
Bastará a mente e seus impulsos eléctricos para fazer fluir
o Rio? Pulsará no tempo a água vermelha que escorre
por todos os hemisférios do corpo? No dia em que a luz
entrar no alçapão do sótão, que descobrirá?
A minha escrita etiquetada —
marca contrafeccionada
em comércio de feira?…
Talvez…
Caminho divergente
convergente
aposto à mesma ideia
de sempre.
Apenas
rasgado com outro sabor:
o meu!
Os dias são uma sucessão de surpresas encontradas nos
caminhos onde entramos quase, quase, quase sem querer.
Quase… quase como folhas que vamos colorindo, brincando
com o silêncio, o pó, o rio estendido ao sabor do nosso
refresco, brinca com o veneno que traz na língua. Quase
fogo. Quase… asas queimadas, não levantam voo.
o silêncio
atinge
a irrealidade,
no corredor do nada
realiza
o vazio.
o vazio é nada.
o nada é silêncio.
o silêncio é palavra.
a palavra é surpresa,
é escárnio:
livro deitado
a ressonar o poema.
...
sou inútil quando durmo,
dormindo não realizo
o silêncio da ausência
— inominada —
brancura de página resistente
na vaga
enrolada
nas saias de Abril
a flor azul
enraizada
no Março
a florir
no Maio —
a boca do Outubro
nos olhos:
o silêncio absoluto
a ânsia
presença/ausência
inútil quando durmo.
esse fascínio especial
de eco perene
inevitável
ao ritmo do rumor
insuperável —
musical contradição
na brancura final.
a transparência é:
a mórbida vontade
do espelho,
em apresentar
invertida
a imagem aos olhos
analógicos
da ilusória urdidura.
FERNANDES, Júlio A. B. - Março 2009.
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CORES
1.
Um carro…
Rodas preso nas linhas;
todas,
corpo
entre troncos
lambidos
a fogo.
Dentro, as margens do vento
na face
rosada
florida flora
rústica telha vermelha.
Pelo outro lado, sobem
gorjeios
líquidos
aos pés das cabras.
Não corras a voz
nos fios
telefónicos
ela soa melhor
nos fios
do chão.
2.
Onde estiveram, assim, tão cheios
de seiva teus seios simples,
duros.
(Suculência apertada na boca
da urze e da carqueja
até meus olhos?
Esse leite escorrido
pela ranhura das pedras, teu corpo
despido no murmúrio do sol?)
O verão na face e a luz
mais viva dos círios, sorvo-te
completa, a boca inteira
entrelinhas sinuosas…
Onde estiveram, assim, tão cheios
de seiva teus seios simples,
duros
sem meus lábios?
3.
Os calcanhares do tempo
ressoam na terra, homem,
em ecos
as vidraças que te ouvem!…
Entra
vivo
cor e som.
(Que calor
visionarias agora
na hora
das ancas dançando
na seda do lago onde dormes?)
Quantas sombras,
salpicos oceânicos,
no orgânico rosto metalizado…
(E tu,
através do cano,
namoras
a hora
que te leva ao chão?)
a sombra
a sombra do sono
e de novo dormes!…
4.
Quantas aves fazem ninho no teu corpo
quanta abundância de húmus
agarrado a tuas pernas
são tuas lágrimas quem rega?
É intenção do observador, nesta hora menos própria do dia
despir-se como todos os amantes [a esta hora menos própria do dia
gemem as flores o sol da tarde — sem refresco de frutos por perto onde
mergulhar a boca ressequida ou o corpo (como sofá de pele
que a luz vai comendo)].
É intenção do observador, nesta hora menos própria do dia
mergulhar como todas as crianças nos tanques que povoam a cidade
sem o constrangimento da nudez exposta ao transeunte dando cor
à reportagem de meteorologia: — até fez levantar o asfalto!…
É intenção do observador, nesta hora menos própria do dia
dormir a sesta — até deus o fez ao sétimo dia, porque não fazê-lo
o pobre poeta à sétima hora — após o sol lamber a terra?
Quando subires a serra,
verás o resto
e saberás quem dorme na tela
jorrando água pelos olhos.
5.
Desapareceu o arauto
essa figura de gente que nos batia à porta dos tímpanos
com as novas do dia, lá pela baixa,
e interpelava os manequins passeantes com os fatos último grito,
com sua voz rouca de bagaço.
Desapareceu o arauto
mas a desgraça, não. Tal como o ardina, também ela se veste
de maltrapilho. Farrapos com nome, sim. Farrapos são manequins
passeantes com seus fatos último grito,
(pensando que envergonham as montanhas frias
a noroeste dos sonhos
onde mais uma desgraçada teve um bastardo
do dono da fábrica.
— Já não se usa?!…)
Desapareceu o arauto
e a voz dos bastardos do mundo — fui com eles:
Subimos as penedias interiores onde o tempo parou.
É lá que vivem agora, luz e cor, abrigados por detrás de um cartaz
anunciando cerejas na face da estrada.
E o lugar vai-se enfeitando pelas suas mãos:
cortam-lhe os cabelos espinhosos enquanto as cabras pastoreiam.
Desapareceu o arauto
das ruas
frias
nuas
como a voz dos homens!
6.
Não
mudou
de nome
a lagoa ao fundo do corpo
nem
as mãos
que a mergulham
ganharam asas e novo voo
revivem
apenas
a estrada
com renovado sabor
a luz que outrora era e não via
7.
A minha mãe encontra-se no quadro
rentinho ao chão
pintada a flores de tons sagrados
murmura quando acorda
pelo estio
sedes à minha boca
como fugir deste chamamento
solteiro?
nos traços da lua vejo
pedaços dela
como é bela a minha mãe
viva no quadro
rentinho ao chão.
FERNANDES, Júlio A. B. – Maio 2009
