.jpg)
Há certa sagacidade na gente raiana.
Alguns têm até
o dom de nos espantar
com visão da nudez e do fogo
que chega no solstício maior.
A serra despe-se despudoradamente.
Desquadrilhando-se, o matagal soberbo.
A ousadia é um sinal singelo.
Encontrámo-nos algures sob o azul.
A maternidade da terra aporta no olhar.
Verticalidade da vinha
em socalcos rasgados do seu ventre,
ri com seus dentes verdes.
Uma águia chama ao deslumbramento.
Poderia deixar as mãos deslizar
pelas tuas rochas nuas, acariciar
teus espaços como sol.
A nuvem dos pensamentos diluiu-se
nas tuas encostas graníticas.
A viagem começa perto do meio-dia.
No bornal, momentos.
Esses mesmo que também levas
aos lugares que visitas,
sem medos,
pois que passam todas as alfândegas.
Há registos de pré-história no corpo.
Impressões de mãe no vento da Serra.
Um sopro morno, de quatro rios.
Brancuras e grutas e sinais castrejos
nas pedras da minha terra.
(Sonolento
desejo de acordar.)
Dois rios no estuário. Um oceano desconhecido ruge. É noite.
Apetece-me prender o tempo nas asas dum falcão-peregrino.
Voar na imensidão da seara rumo a nenhures.
Se soubesses quantos planos comporta
o pensamento duma cordilheira…
Antes do crepúsculo, tudo adormece.
As cores são mais vivas com a lua
e as vozes mais sonoras
são gargantas de silêncio;
a montante
a intensidade vai descendo;
nevoeiro pelas costas da serra
o véu sob os rios.
Quando a oração chega, a Confirmação sacramental
não reduz a luz.
Se desaguar um ribeiro no teu leito,
se na sua bordadura encontrares areias,
se delas fizeres praia fluvial.
Convida-me à plenitude.
Também sou forma e curso e vento
pairando sobre as montanhas.
Fortifico a povoação
do corpo, no cume
do vinho os
socalcos da serra
engravidam
os olhos nostálgicos.
Um morcego de bigode retira-se
a manhã despe a noite.
Instalados no risco dos socalcos castanheiros
afloram as encostas penetrando a terra basal.
Deixai-me vergar o centeio.
Descamisar a espiga da boroa.
Regar a urze peluda
com a humidade retida entre as pedras.
Sou romano nas tuas terras;
cobiço: o esplendor de teus vinhos,
o calor de tuas águas termais,
a abundância do teu colo.
Panóias, do meu desassossego,
apazigua, cativa
o meu deslumbramento
vertical.
Às vezes, são as vertigens que me assustam
e me fazem fugir de ti.
De mansinho, o vento vem dobrar o colmo.
Assobia entre o xisto chamando a fauna.
Há um lugar imponentemente belo —
o vale profundo onde me deito ao raiar da aurora.
Se te pudesse olhar com a mesma doçura
com que me olhavas nos idos de maio,
quando me deitavas no teu poema,
inteiramente aberto
ao contacto das minhas mãos…
Mas maio foi abril
de anos corridos em penumbra.
Sabes,
ontem balancei-me nos teus picos.
Tomei banhos de vento e de sol —
recordei-te como sempre foste.
Contigo nunca precisei de óculos
protectores,
mesmo quando te pintavas de branco
para me arrefecer o corpo
nos dias de febre.
Hoje, volta a ser maio em abril.
As águas do mar, têm o mesmo som,
os rios correm para o mesmo lugar,
pela mesma estrada.
(Já para ir ter contigo!…,
fizeram via nova, rápida,
como se visitar-te fosse coisa…
tipo «rápido».)
Deixei-me seguir ao longo
de teu longo corpo
ansiando sentir-te
meu maio
abril em mim.
Os passos são luz quando se regressa às origens.
Irremediavelmente, tudo evolui.
Anda no ar uma tecnocracia de evolução…
e na terra um sardão (ou será víbora-cornuda?!),
ou martes foina, e o rio ali mesmo: Ovelha!
Era, talvez, um corvo.
Um corvo!, sim!, seria?!
Aquela ave que nos seguia
pelo alto da serra
despida de preconceitos
de céu e chão. Ou
seria um gavião a levedar o pão,
a ave que nos seguia
pelos altos do marão?
De rapina!?
a memória pequenina
daquela pequena escola
que foi minha, muito viva,
aconchegadinha
ao poder que a recorda.
O caminho serpenteia.
Encosta a cima, geme o entrudo.
Melhor fossem os lobos, alcateias inteiras. Corços!
Um esquilo ainda saltita nos ramos do Carnaval.
É tardinha nos sorrisos soltos
a luz da serra ficou lá longe,
no mesmo espaço para onde voam
os soltos sorrisos da tardinha.
É da idade. Sempre a idade a trair
a urdidura do tempo que foi lá…
na luz da serra que ficou longe,
na tardinha dos sorrisos voadores.
Ainda assim, são eles e ela na tardinha
campanários d’alma bem fresquinha
nas janelas da estrada a serra minha
a casa do ser no seu todo.
O pássaro que voa é um tordo
na manhã da outra casa…
Era dia dentro da noite.
A recordação desperta pela serra como silêncio
duma ave alerta com olhar fixo
na distância.
Podia dizer-te da força do vento que a povoa ou,
simplesmente,
falar daquela coroa, elevada sobre a urze
e a carqueja,
e dos tojos a protegerem da aproximação.
Mas, não.
Sob a neblina, o horizonte
abre-se à majestade,
a esse doce esplendor presente
da saudade,
quando a manhã acorda branca.
Morna e branca a manhã da casa.
Ainda que a luz seja pálida,
há um interruptor que recorda
despudorando
palavras de ventre,
calores de entranhas, montanhas
com seios lisos sob o céu azul…
O passado é memória nos olhos do observador.
E como é rude esta vida, este olhar encurtado,
vincado
na passagem daquela saudade infantil,
própria.
Ainda que fosse uma águia-caçadeira. Uma toupeira-
-de-água. Um tarta-arranhão-azulado.
Uma gralha-de-bico-vermelho. Um
melro-das-rochas. Um falcão-peregrino,
a dormir nas palavras.
É tardinha nos sorrisos soltos
a luz da serra ficou lá longe,
no mesmo espaço para onde voam
os soltos sorrisos da tardinha.
É da idade. Sempre a idade a trair
a urdidura do tempo que foi lá…
na luz da Serra que ficou longe,
na tardinha dos sorrisos voadores.
Ainda assim, são eles e ela na tardinha
campanários d’alma bem fresquinha
nas janelas da estrada a Serra minha
a casa do ser no seu todo.
O pássaro que voa é um tordo
na manhã da outra casa…
FERNANDES, Júlio A. B. - Março 2009.